segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Vez e hora, Deus sem demora?


Por Eliza Batista
Procissão entrou, reza esbarrou
Uma multidão ao leiloeiro rodeou
E um bando de bate-paus
Por ali se mostraram, mais ainda, maus
Entre muitos bêbados
Angélica e Sariema estavam
Eles realizavam o leilão
E nele, Sariema disputavam
Ouvindo o lance inicial
Nhô Augusto mostrando valentia
Deu o lance de 50 mil réis
Pra mostrar que com ele ninguém competia
Arrastando Sariema pelo braço
Daquele lugar Nhô Augusto se retirou
Caminhou para o Beco do Sem-Ceroula
Onde ali ele Sariema despachou
Esbarrando em Quim mensageiro
Que um recado da esposa trazia
Disse que ela, Diónora, o esperaria
Nhô Augusto não esperou nem o pobre falar
E foi dizendo que pra casa não iria voltar
Nhô Augusto tinha combinado
Pra Morro Azul viajar
Com Diónora e sua filha
Assim que o dia clarear
Nhõ Augusto se recusou
Com sua esposa e filha viajar
Mandou Quim arrear os cavalos
E mandou que ele fosse em seu lugar
Quando da boa nova ficou sabendo
Diónora feliz se jubilou
Pois com Ovídio fugiria
Ela não mais amava o marido
A pobre, já cansada, queria alforria
Já não tinha mais alegria
Assim, com Ovídio se salvaria
Os bate-paus de Nhô Augusto
O traíram com crueldade
Juntaram-se com os capangas do Consilva
E lhe deram uma surra sem piedade
Os homens com muita maldade
Nhô Augusto com ferro quente foi marcado
Logo em seguida caiu em uma ribanceira
E por um casal de negros foi encontrado
O casal cuidou muito bem dele
E ele os retribuía com muita gratidão
Até chamaram um padre
Para que Nhô Augusto fizesse confissão
Assim passou a viver
Pagando por todos os erros
Nhô Augusto só tinha um lema
P’ra o céu ele ia nem que fosse
Abaixo de porrete
Quando da surra já estava curado
Nhô Augusto resolveu sair sem destino
Levando consigo o casal que o acolheu
Contando de sua vida sem desatino
Nessas andanças sem rumo
Um dia encontrou com Tião de Tereza
Que ao reconhecê-lo lhe botou ao prumo
De que Quim havia morrido em sua defesa
E que sua filha estava na vida de safadeza
Quando ficou sabendo da notícia
Nhõ Augusto ficou assim triste, assim vingativo
Deseja voltar e mostrar de a sua valia
Pela promessa de a Deus seguir, persistiu pensativo
Quando numa pequena vila chegou
Onde o povo mal se mexia
Com Joãozinho Bem-Bem encontrou
Tira-prosa e mostrando valentia
Joãozin Bem-Bem, ao cumprimentar, Nhô Augusto
Disse-lhe que só estava de passagem
Só queria descansar um pouco
Para seguir adiante a viagem
A partir de um desentendimento
Começaram a se contestar
Ao golpear João Bem-Bem
Este caiu no mesmo lugar
Nhõ Augusto, também, todo ensaguentado
Desejou o último pedido
Põe a benção na minha filha
E de todos os meus pecados tô arrependido
Quando estava quase desfalecido
Nhô Augusto fez a revelação
Todos ali ficaram espantados
Quão grande foi a sua transformação
Nhô Augusto era Matraga,
Matraga não é Matraga, não é nada.
Matraga é Esteves. Augusto Esteves,
filho do Coronel Afonsão Esteves
Era homem forte convalescido
E por Deus perdoado.

Esse texto é uma releitura do texto "A hora e a vez de Augusto Matraga" escrito por Eliza, a partir das leituras realizadas pelo grupo "Ser Tão Rosa: palavras de sertanejo".

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Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe. G. Rosa